I
Passo a minha mão pela tua cabeça
Recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
Olhando-a como passa e vendo como passou.
Quero tanto saber o tu pensas.
II
O que tu pensas, mas apenas como,
E quando e o porquê, e não
Que estejas pensando ou não que a minha mão,
Atenta e recurvada, passa brandamente.
Quero saber aquilo que nem sabes.
III
Aquilo que nem sabes - como saberias
O que o pensar é antes de pensar-se?
A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
Ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
Mas não na expectativa do arrepio prévio.
IV
Porque esperaste, cienta, a pele da minha mão.
Jorge de Sena, in "Poemas Escolhidos".